
por Broto Verbo
infestada de odores a nados-mortos amores,
.
MELÓMANO, SONHADOR, POETA...
ENFIM, COISAS QUE NÃO NOS LEVAM A LADO NENHUM,
MAS QUE NOS PERMITEM IR A TODO LADO!

Só me saem palavras estéreis...
Inusitados resquícios de nadas
à espera de um qualquer predicado que lhes confira vida...

SOMBRA FUGITIVA
por Broto Verbo
Na imagem de nós que o espelho deveria reflectir,
apareces só.
O corpo que te abraçava há muito se ausentou.
Foi à procura da sua sombra,
que a passo longo e a galope,
se soltou da sua rédea…
Se a encontrar lhe direi
num tom trémulo de ameaça
(porque dela quero escolta),
que se me voltar a escapar,
comigo em mim não volta!
Queira ela isso não querer!
Faz-me falta que não se aparte!
Porque a sombra que de mim foge
torna-me nada em qualquer parte…
COLAR SAGRADO
por Broto Verbo
E se me começasses de novo?
Do zero, virgem, imaculado...
Com que imagem, de que alma me farias?
Preferir-me-ias marioneta, boneco de barro moldável?
Que vida, que vontades me outorgarias?
Abro mão da razão se inerte me receberes…
E se amputado do meu juízo eu voltar a merecer-te,
que me transformes então num colar sagrado!
Mesmo céptico, seria crente,
na condição de não ser gente,
coabitar teu peito alado...
BECO DO VIGÁRIO
por Broto Verbo
Jaz um corpo inerte no Beco do Vigário.
A força bruta que o tombou esgueirou-se na sombra das suas vielas...
O corpo veio a si, longos instantes depois, mas veio.
A força bruta, não.
Esfumou-se entre os fantasmas dos defuntos fadistas,
delinquentes artistas, que numa interminável trama
ainda povoam esta Alfama...
Poema inspirado numa cena real de pancadaria, protagonizada por dois ébrios marialvas vagabundos, e presenciada in loco, de forma inesperada
EXISTÊNCIA
por Broto Verbo
Na estrada infinita,
finita é a luz.
Na luz que se finda,
estilhaça-se a sombra.
Na sombra que morre,
germina a ausência.
Na ausência que cresce
acanha-se o todo.
No todo que oculta,
confisca-se a forma.
Na forma que resta,
deflagra a deforma.
A deforma que brota,
adorna-se de alma.
Na alma infinita,
finita é a vida.
Na vida que finda,
profunda é a esperança...
Ser ou não ser!
Estar ou não estar!
Dependesse de nós,
partir ou ficar...
Na máquina quente,
agita-se o sangue.
No sangue que bomba,
enerva-se a seiva.
Na seiva que nutre,
vigora-se a força.
Na força que aperta,
sufoca-se a artéria.
Na artéria que explode,
inunda-se o ar.
No ar que evapora,
dilui-se a matéria.
A matéria que fica,
disfarça de corpo.
No corpo que aviva,
ateia-se a chama.
Na chama que cessa,
dissipa-se a vida...
Ser ou não ser!
Estar ou não estar!
Dependesse de nós,
partir ou ficar...

ALMA
por Broto Verbo
A minha alma é névoa
que se adensa ao virar de cada esquina!
É espelho opaco, redenção e purgatório...
É poço fundo que no escuro se ilumina...
É pouso incerto, lar sem território,
sistema amorfo que na luz se extermina...


UMA CENA DE AMOR
por Broto Verbo
O acre sabor do vinil que a pele açambarca,
confisca-lhe a boca lasciva num beijo devasso...
No toque macio da borracha que o excita,
despreza o embate do chicote que o espanca…
Amarra o garrote nos ferros da cama que range,
prendendo-lhe os pulsos com vil rebeldia e astúcia…
Na dança frenética que a loucura suscita,
desnuda o corpo que o domina e abranda…
Sela a marca das unhas na tez luzidia
com a saliva que corre da língua insalubre e faminta…
E no abrigo que se abre ao prazer libertino,
deposita-lhe o falo que a açoita, desanca e fustiga…
Firme, abocanha-lhe os seios com tenacidade,
deixando os mamilos ensanguentados e tesos…
No pescoço rosado que aperta e com força estrangula,
traça o destino que ali logo se agiganta…
Sente no cóccix a lava pronta a ser expelida,
numa erupção eminente, branca e viscosa…
E nos lábios carnudos, mordiscados e entreabertos,
jorra o deleite divino que o expurga e liberta…
Sela a marca das unhas na tez luzidia
com a saliva que corre da língua insalubre e faminta…
E no abrigo que se abre ao prazer libertino,
deposita-lhe o falo que a açoita, desanca e fustiga…
BROTO VERBO: letra, vozes e música
Tema incluído na maquete "Na Tua Língua Meu Alívio de Dor"

Quem me apagou a luz e se serviu deste escuro breu
para me entrar alma adentro,
arrancando de mim tudo aquilo que um dia fui eu?
Quem me apartou da vida e se acercou do lugar deixado,
pintando de noite o dia, que em mim vivia,
e me deixou na penumbra ancorado?
Vândalo em mim que mora,
descontrolo mordaz e cruel,
marioneta nas mãos assombradas,
de uma força qualquer que em mim está sem eu querer...
E se adormeço assim neste acordar sobressalto e não volto,
para em mim renascer,
expulsando este vírus que outros muitos de mim me fazem parecer?
(sou) Inimputável...
As barbáries que me viste fazer,
não fui eu que as cometi!
Embora fosse o meu corpo o carrasco que as fez suceder...
Quem se faz passar por mim dizendo que sou eu sem eu ser?
Afinal que maldade me fiz?
Eu ou eu?
Qual de mim estou a ser?
E não há cela que me abrace num retiro!
Não há recluso a quem eu faça companhia!
Não há juiz que me decida uma clausura!
Estou preso nesta liberdade que me adia...
BROTO VERBO: letra e vozes
MIKROBEN KRIEG: música
Tema incluído no disco "Final Cut" de Mikroben Krieg
Edição: Thisco, 2010


Mansa, é agora a madrugada que se põe no meu leito.
Depois da feroz surra do seu vento e do arfar guerreiro
do seu silvo me aprisionarem em sagaz tilinte,
rende-se, por fim, ao vencer do seu cansaço.
Dorme então a meu lado, a terna adormecida...
Na sua pele, o resquício de suave escarlate vai-se desvanecendo,
levando com ele os últimos sinais de agitada cópula...
Deu luta o meu amor.

BROTO VERBO
NA TUA LÍNGUA MEU ALÍVIO DE DOR
2007/2008/2009 Esfíncter Records

Perdi a paciência!
Arredem-se porque as palavras de hoje são arremessos bélicos
tão poderosos como as demandas a que me obrigo!
Fujam! Porque se vos ponho a mão em cima
nem sei o que vos faço!
Estou o terror em pessoa, e se passarem por perto
não ousem sequer olhar-me!
Alguém me disse que de hoje não passo!
Oxalá esse alguém esteja errado e que não passe de um vão ameaço!
Se amanhã me virem vivo, sereno e a compasso,
é porque não foi mais que um embuste!
Por muito que isso vos custe…

Será que eras tu que estavas aqui mesmo
consciente e de plantão à minha espera?
Será que era eu que te queria aqui
tendo a certeza que de mim eu não mais queria?
Nesta estrada eu já só via o caminho de encontrar
a bruma para me perder...
Nesta vida eu não mais queria que não fosse repousar
num brando indolor morrer…
Terá sido um mero acaso?
Terá sido uma quimera,
o teu olhar lançar-se assim apoderando-se do meu?
Numa conquista de prazer provei teus lábios em delírio,
e em delírio assim fiquei.
Queria mais e mais eu queria
queria tanto e cegamente,
que no desejo me quedei!
E se na morte eu quase estava,
agora é que não me lá quero,
mesmo que não sofra nada!
Quero viver junto de ti,
aconchegado no teu peito que amamenta o meu sonho,
e me faz crer na descendência, que é fruto do nosso coito,
e nos dará continuidade…
Terá sido um mero acaso?
Terá sido uma quimera,
o teu olhar lançar-se assim apoderando-se do meu?
Quão puro quero dar-te este veneno
que é o amor que me infecta!
(tu… que me salvaste com teu resgate…)
Diz-me amor, mas diz-me de verdade,
se me queres sempre assim a querer-te sempre tanto?
Diz-me amor, mas diz-me de verdade,
que feitiço me puseste que me deixa nesta encanto?

ELECTROCUTA-ME Vejo lá longe, no alto de uma serra,
por Broto Verbo
um aglomerado de chapa numa aldeia perdida…
À volta de uma fogueira de labareda alta, dançam homens,
entrelaçados como uma roda dentada no esplendor da sua precisão.
Batem os pés como martelos, calcando o saibro no solo,
criando um som abafado que se ouve entre os vales desnudados,
de vegetação rasteira, afugentando raposas,
e apavorando as lebres em debandada…
Ouço o rufar de mil bigornas no ar!
Jorra o vinho no banquete que se pôs à volta da folia!
Chamamento de hostes e aficionados!
Exorcismo de uma dança sazonal,
estranha, sincopada, minimal…
Baile de cores cinza.
Monocromia em combustão.
Exército de corpos na partida de chegada alguma…
Inicia-se assim um combate feroz,
entre o tempo que da vida nos tirou,
e o tempo que nos finda no horizonte.
Electrocuta-me e ressuscita-me!
A ferrugem da máquina que pulsa no meu seio,
já se fundiu na pele quebradiça que me abraça.
Ainda sou carne, ou já sou ferro?
Corre em mim sangue, ou já é óleo?
E antes que o sol nasça e eu inche de novo,
molha-me e liga-me à corrente.
Electrocuta-me e ressuscita-me!
Quero-me de novo a sentir…
Hino do Festival de Música Industrial "Elektrocution : Resurrection"
realizado em Agosto de 2009, na aldeia de Maria Gomes
situada nas serranias de Pampilhosa da Serra

Que poema de amor escreveria,
se ao escrever amasse o que de mim verdadeiramente sinto?
Mas como me posso eu amar se me desconheço?
E odiar, então sendo, tão pouco me posso!
Agonia esta que me sova a de mim nada saber,
condenando-me a viver defunto de mim mesmo…

NATUREZA PARADOXAL Não rogamos a nossa nascença
por Broto Verbo
nem esquivamos da nossa morte…
Poderíamos nós ter melhor sorte?
Natureza paradoxal…
Bicho complexo, força motriz,
mistério supremo, motivo de ira…
Pai fértil possante, mãe cálida e fria
que a todos nos dá, e que a todos nos tira...

INTEGRIDADE Não me rendo!
por Broto Verbo
Estou à margem do rebanho,
porque a mim me sou fiel.
Sempre,
e nem que desse mal eu morra...